Siga-nos

Colunas

QG da Elly #2 – Mulheres nos jogos: vivência e desafios

Segunda coluna fala sobre a presença e desafios enfrentados pelas mulheres nos esports em geral

Arte por VALORANT Zone

QG da Elly #2 – Mulheres nos jogos: vivência e desafios

Receptividade, visibilidade e referência. Esses itens parecem muito triviais quando se pensa em jogos. Entretanto, quando a realidade de um determinado grupo é estar em segundo plano, fazendo-o lidar com a ausência desses fatores, torna-se imprescindível a discussão sobre esses aspectos.

Nos primórdios da indústria dos jogos, publicidade voltada ao público feminino era inexistente, fruto do sexismo, pois não enxergavam mulheres como consumidoras. Com o passar das décadas, a ascensão do consumo feminino no setor passou a despertar interesse do mercado, e essa condição tornou urgente pensar em maneiras de incluir e envolver essa classe consumidora, além de colaborar para a naturalização da presença de mulheres.

Mesmo assim, nós, mulheres, continuamos sofrendo preconceito, mas, dessa vez não apenas do mercado como também dos demais consumidores de jogos digitais. No Brasil, segunda pesquisa da PGB 2020, a comunidade casual é composta por 61,9% de mulheres, que contrasta diretamente com a comunidade hardcore, a qual tem um índice de 61,3% de homens. Se boa parte dos jogadores é mulher, porque não vemos mulheres jogando pra valer ou em posições de destaque?

Uma pergunta simples com uma resposta complexa. Para iniciar o debate, podemos citar sexismo – definição do que é de “mulher” ou de “homem” – e machismo estrutural – ações e costumes que colocam homens em posição de privilégio em detrimento de mulheres, que são tão normalizados na sociedade a ponto de se tornarem imperceptíveis.

Tendo em vista que jogos online proporcionam criação de comunidades, é inegável que aspectos sociais como preconceito e aversão dariam as caras nesse ecossistema virtual. Um dos maiores desafios que minorias enfrentam é a impunidade. Por mais que tenhamos ferramentas para reportar comportamento tóxico e discurso de ódio, elas não são efetivamente punitivas.

Equipe feminina da Black Dragons estreiando na liga de CS | Foto: CBCS

E, além disso, esses métodos adotados pelas empresas acabam atuando apenas na consequência da discriminação, e não na causa desse problema com raízes tão profundas. Por esse motivo, são necessárias ações que incentivem o debate acerca da ausência de jogadoras hardcore e que destaquem mulheres nos esportes eletrônicos.

REALIDADE DE MULHERES NOS E-SPORTS

A escassez do gênero não só acontece no meio competitivo, com jogadoras profissionais, casters e analistas, mas também no setor de influenciadores e jornalistas. O sucesso nunca acontece por mérito próprio: nunca é competência, certamente alguém a indicou, ou os atributos físicos a ajudaram – afinal de contas, consideram que estamos lá para contribuir com nossa beleza, e não com competência.

O trabalho sério de mulheres é menosprezado, e nos jogos o panorama não seria diferente. São incontáveis casos que personalidades femininas nos e-sports alegaram e alegam tal  acontecimento. A resistência da grande massa à permanência e ascensão de mulheres nos esportes eletrônicos é gigantesca.

Não é atoa que, quando expostas ao ridículo – como relatado pela analista Letícia Motta no Twitter que não foi chamada para atuar em seu ofício principal porque a “comunidade não está acostumada a ver mulheres fazendo-o” – muitas de nós acabamos desistindo por falta de esperança. A luta diária para não ter o trabalho desvalorizado é extremamente desgastante, já que não basta ser competente, é preciso provar que “pertence” à comunidade gamer constantemente, e, sobretudo, resistir. 

Letícia Motta é a principal voz feminina do VALORANT no Brasil, hoje | Foto: BBL

À vista disso, jogadoras que tentam desbravar a atmosfera competitiva também enfrentam muitos desafios. Desde ter que lidar com jogadores que não gostam de participar de equipes com mulheres a testemunhar organizações abusando do hype de uma jogadora em lineup majoritariamente masculina, o equilíbrio psicológico, sobretudo, passa a ser um dos atributos mais importantes para se manter resiliente em meio dessa condição desfavorável.

Quando há uma mulher jogando, o público pressiona-a com grandes expectativas, uma vez que o assunto do chat será sua performance para justificar se todas as outras mulheres da Terra jogam bem ou mal. Nunca nos tratam com naturalidade: somos sempre uma anomalia.

REPRESENTATIVIDADE E SEUS DESAFIOS

Como já evidenciada, a presença feminina nos jogos ainda é constantemente desvalorizada e apagada. Porém, quando vemos mulheres nos holofotes, elas seguem majoritariamente um modelo: cisgênero, hétero e branco. O mercado dos esportes eletrônicos replica o preconceito, dando maior destaque e estrutura para as camadas mais privilegiadas.

Viver de jogos já é muito difícil no Brasil, e a caminhada de quem não fazer parte dessa fatia privilegiada é ainda mais conturbada.“Fico muito triste em saber que existem poucas mulheres pretas que têm visibilidade nos jogos” aponta Danielle “Cherna” Andrade, jogadora profissional de Rainbow Six Siege preta, LGBT e ícone de resistência em uma das comunidades mais tóxicas. A jogadora também lamenta a escassez de convites ao povo preto para campanhas publicitárias, que dificulta ainda mais a possibilidade de ter como principal fonte de renda os jogos. 

Cherna competindo no Rainbow Six | Foto: Saymon Sampaio / Ubisoft

Em um lado não tão distante desse espectro, testemunhamos a falta de receptividade e acessibilidade competitiva às mulheres transgênero. “Desde que transicionei socialmente, precisei refazer meus círculos sociais de jogos quase completamente por causa da transfobia”. afirma Mariana “Mari” Osaki.

A jogadora descreve a reação virtual como se “fingissem que ela nunca tivesse existido”, e relembra a decisão de adotar um nickname temporário “neutro” para evitar conflitos acerca do assunto enquanto tentava competir em PUBG. Com a chegada de VALORANT, Mari teve o ímpeto de continuar competindo, agora sem omitir sua identidade, mas, infelizmente, ainda sofre para competir em torneios femininos – já que precisa da validação de staffs. E retrata a experiência como sufocante, já que “para uma pessoa trans não-hormonizada cujos documentos não foram retificados e que sobrevive por nome social, simplesmente não é possível ingressar em nenhum campeonato”.

PERMANÊNCIA FEMININA NOS JOGOS

Quando se olha o topo dos jogos, é difícil achar uma figura feminina para se inspirar, e é nesse ecossistema que iniciativas como comunidades e torneios femininos tornam-se relevantes. 

A finalidade desses campeonatos é criar um ambiente competitivo propício e acolhedor, responsável por demonstrar às meninas que elas pertencem ao espaço. Dessa maneira, incentivam a permanência, além de ajudar na construção de personalidades que se destaquem e sirvam de referência às outras participantes. Esses projetos, como a Ascent Women’s Cup, são tão essenciais para jogadoras quanto para novas narradoras, analistas, apresentadoras e coaches, que, muitas vezes, só conseguem a primeira experiência competitiva desse modo.

Rivals Women’s Cup é um dos principais torneio femininos no Brasil | Foto: Rivals

Por consequência, há evolução do trabalho, já que há ferramentas que proporcionem vivência e as exponham ao público. Sendo assim, fica evidente que é um mito estabelecido que torneios femininos apenas segregam homens e mulheres, já que têm como objetivo principal dar o pontapé competitivo inicial para que as participantes extrapolem a bolha e ascendam ao competitivo misto.

Da mesma forma, as comunidades femininas, como o Valorosas, têm como objetivo proporcionar apoio mútuo entre as mulheres. Tal suporte impulsiona o sentimento de pertencimento, faz com que enxerguemos que existe uma lacuna gigantesca de representatividade nos esportes eletrônicos e também ajuda com que criemos forças e formas de preenchê-las.

INDICAÇÃO DE MULHERES NOS ESPORTS

Por fim, faz-se necessário ressaltar o trabalho de algumas grandes mulheres que estão se dedicando ao VALORANT. No setor de casting há Letícia Motta, Stefany Espin, Fernanda Piva, Evelyn Mackus, e Maria Fogueta. Na criação de conteúdo e stream, temos AthenaX, c00ru, Rawrafaela, Lahgolas, analumi, gata e Pandy. E, finalmente, jogadoras que se mostram promissoras ao competitivo: Naxy, celinett, tayhuhu, nanah, Bia, drn e Six.

Gamers Club
Parceira OFICIAL da RIOT GAMES no Brasil e tem como objetivo fomentar o cenário competitivo de VALORANT, com campeonatos e guias para você ter a melhor experiência.
Conheça a Gamers Club
Anúncio

Veja mais

Anúncio

Mais em Colunas